quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

NÃO DISCUTO RELIGIÃO. É CADA UM NA SUA

NÃO DISCUTO RELIGIÃO. É CADA UM NA SUA

Base bíblica:  Mateus 28.19-20; João 14.6
Estamos enfrentando uma crise muito grande na questão de evangelismo. É triste ver que não falamos mais de nossa fé aos nossos amigos. Quando muito, nos questionamos sobre a necessidade e a real importância de falarmos de Jesus às pessoas que estão perto de nós. Fica a impressão de que não queremos incomodar ninguém com nosso discurso, de que temos medo de ser ridículos e, em alguns casos, de que até mesmo duvidamos que esse evangelho, no qual dizemos crer, possa ser a solução para a vida das pessoas.
Por que não agimos como Pedro, que cheio do Espírito, logo após o Pentecostes, pregou a uma multidão e três mil pessoas se converteram (At 2.41)? Ou como Paulo no Areópago que, quando pregava aos atenienses, mostrou senso de oportunidade, sabedoria e graça (At 17.22-34)?
Por que não falamos? Por que não discutimos sobre nossa fé com a mesma liberdade, tranquilidade, facilidade e alegria com que conversamos sobre futebol, política, filmes e tantas outras coisas? O que está acontecendo com nosso testemunho?
O que falta para nós: convicção no que cremos, ousadia, compromisso, prática? Sim. Todas essas coisas têm contribuído para “minar” nosso testemunho. Também não podemos esquecer que estamos vivendo em uma sociedade na qual não há um padrão oficial e aprovado de crença ou conduta, não há absolutos e não há certo e errado. Cada um faz a escolha que quer, em qualquer área de sua vida e essa escolha não interessa a mais ninguém. Portanto, se não há absolutos, por que testemunhar? E, então, essa mentalidade prejudica nossa iniciativa.
Passamos a raciocinar assim: se ninguém nos importuna com as suas crenças e filosofias, por que haveríamos de importunar alguém com a nossa? Mas não é isso que a Bíblia nos ensina. Ela diz: “pregue a mensagem e insista em anunciá- la, seja no tempo certo ou não. Procure convencer, repreenda, anime e ensine com toda a paciência” (2Tm 4.2 NTLH).
Temos, portanto, a responsabilidade de mostrar que o evangelho não é mais uma escolha dentre tantas outras e seus absolutos não são apenas mais uma verdade, dentre “todas as verdades”. Mas para agir assim é necessário mudar a postura, mentalidade e ter:

1. Compromisso absoluto com aquilo que creio

Fé! Essa é a maior expressão daquilo que dizemos crer. Ter compromisso absoluto com o que creio é ter compromisso de fé! O capítulo 2 do livro de Hebreus é um exemplo disso. Ali encontramos irmãos como nós, sujeitos aos mesmos conflitos internos e às mesmas limitações, mas que mostraram ter compromisso de fé no Senhor, e isso fez diferença na vida deles. Vamos destacar Abraão que “quando posto à prova, ofereceu Isaque… porque considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos” (Hb 11.17 e 19), por isso foi chamado “amigo de Deus” (Tg 2.23). Temos também Moisés que “preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado… ” (Hb 11.25-27).
Isso não é maravilhoso? E o texto continua assim: “E que mais direi? Certamente, me faltará o tempo necessário para referir o que há a respeito de Gideão, de Baraque, de Sansão, de Jefté, de Davi, de Samuel e dos profetas, os quais, por meio da fé, subjugaram reinos … fecharam a boca de leões … Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados, homens dos quais o mundo não era digno” (Hb 11.32-38). Gente, isso que lemos aqui é, em sua essência, compromisso absoluto com o que creio! Só assim Deus pode agir com poder e graça em nossa sociedade.
O livro de Atos nos mostra isso quando fala sobre o impacto da fé e do testemunho dos primeiros cristãos, “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui” (At 17.6). Ou seja, a fé, as convicções e o testemunho daqueles irmãos causaram um impacto sem precedentes na sociedade daquela época.
Mas por que isso não continua a acontecer hoje em dia? Por que não oferecemos a este mundo cansado, aflito e faminto a solução que provamos em nossa própria vida? As pessoas estão vulneráveis, inseguras, sem perspectivas, com os relacionamentos esfacelados, se sentem rejeitadas e desamparadas. E nós temos a reposta! Pois, o Evangelho de Cristo oferece reconciliação com Deus e vida eterna, amor, segurança, restauração e descanso. Provamos tudo isso, não é verdade? Por que então não dizemos isso ao mundo? Por que não testemunhamos isso com ousadia e poder? Porque falta em nossa vida um compromisso absoluto com o que cremos. Falta um compromisso de fé!
Sua vida reflete um compromisso absoluto de fé com o Senhor?

2. Compromisso absoluto com a vontade do Pai

Para que possamos dar testemunho fiel, é necessário ter compromisso absoluto com a vontade do Pai. O que vemos hoje é que a maior parte dos cristãos não está comprometida com a vontade do Pai por desconhecê-la, e, outros tantos, por não fazerem dela uma prioridade na vida. Não podemos esquecer que o maior exemplo de comprometimento com a vontade do Pai veio de Jesus. Em João 4.34, Ele diz a Seus discípulos: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra”. Mais tarde, quando se aproximava a Sua morte, em um momento de grande angústia, orou assim ao Pai: “Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade” (Mt 26.42).
E qual é a vontade do Pai com relação ao evangelho? Não é “Ide e fazei discípulos” (Mt 28.19)?
Portanto, a nossa vontade deve estar submetida à vontade maior do Pai que é “ir”. Paulo retrata isso muito bem quando diz: “porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (At 20.27) e também tinha a consciência de sua responsabilidade em não fazê-lo: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co 9.16).
A vontade de Deus deve ser a nossa busca constante! Você se parece com Jesus? Você prioriza a sua vontade ou a vontade Dele?

3. Compromisso absoluto com a realização da missão

Nós só poderemos cumprir o propósito de Deus, se tivermos compromisso absoluto com a realização da missão. Vemos isso na vida de Moisés, cuja missão era liderar o povo até a Terra Prometida: “Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito” (Êx 3.10). Com Paulo não foi diferente. Sua missão era “levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel” (At 9.15). Somente alguém comprometido com a missão poderia estar “em trabalhos, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez” (2Co 11.23-27).
E o nosso exemplo maior de comprometimento vem de Jesus. Ele sabia que tinha que morrer na cruz para cumprir o propósito de Deus: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais  sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia” (Mt 16.21), e, apesar de todo o sofrimento e dor, Ele escolheu cumprir Sua missão.
Ele próprio nos deixou uma missão, e ela deve ser o centro de nossa vida. Jesus disse “Ide e fazei discípulos” (Mt 28.19). Mas o que vemos é que a missão está sendo relegada a um nível secundário. Se der, falamos! Se der, pregamos! Não há um comprometimento absoluto da juventude com a missão, e por isso o mundo sofre e perece. É mais do que discutir preferências e escolhas, é proclamar a vida!
Se não entendermos qual é o nosso dever como igreja de Jesus, pela operação do Espírito Santo, de ir com a mensagem para sarar, abençoar e assim transformar o ser humano em sua totalidade, não cumpriremos a missão de Deus. “Porque o nosso evangelho não chegou até vós tão somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo” (1Ts 1.5).
Você tem um compromisso absoluto com a missão? Ela arde em seu coração?

Conclusão

A juventude precisa com urgência assumir o imperativo de Jesus a Seus servos: “Ide, fazei discípulos”. Não se trata de uma opção, mas, sim, de obediência a uma ordem explícita. Nada, absolutamente nada deve nos desviar de cumprir essa missão.
Devemos combater todo pensamento pós-moderno que afeta a missão da igreja. A juventude deve reavaliar seu comportamento e ver que as pessoas não são convencidas da realidade do amor de Deus unicamente por meio de palavras, mas pela demonstração diária de que o cristianismo funciona e de que o amor de Deus é real.
Como Cristo revelou Deus ao mundo, hoje compete à igreja transmitir Cristo ao mundo. Aceite o desafio “Ide, fazei discípulos”!

A religiosidade humana

A religiosidade humana

Texto Básico: Salmo 95.1-11
Muitas pessoas acham que o medo do desconhecido e a necessidade de dar sentido à vida são fatores que levaram o homem a criar diversas crenças, cerimônias e cultos. Daí surgirem tantos mitos, superstições e ritos para manter contato com o mundo sobrenatural. Entretanto, ao ser criado à imagem de Deus, o homem trouxe consigo a propensão e a necessidade de cultuar o Criador. Necessidade porque é o próprio Deus Quem pede que os homens O adorem. O Senhor Jesus Cristo confirmou esse fato ao declarar: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto” (Lc 4.8). Então, não foi o ser humano quem “inventou” a religião para buscar a Deus, mas, sim, o Criador Quem deu ao homem a capacidade de adorá-Lo.

I. Por que o homem é um ser religioso?

A resposta da Bíblia é simples e clara: porque o homem foi criado à imagem de Deus. O que significa ter sido criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26)?
1. Conceitos
A palavra “imagem” (hebraico tsélem) significa a expressão da realidade. Podemos afirmar que significa “sombra”; a sombra tem semelhança com a pessoa, mas não é exatamente uma cópia da pessoa. E “semelhança” (hebraico demut) significa principalmente “aparência, correspondência, cópia”. Precisamos lembrar que não pode existir sombra se não houver uma realidade. Em Gênesis 5.3, a palavra “semelhança“ aparece antes de “imagem”; em Gênesis 9.6, aparece somente a palavra “imagem”, e em Gênesis 1.27 também. Podemos concluir desses textos que a palavra fundamental para a apresentação da ideia da semelhança de Deus é imagem de Deus.
 2. Significado
A expressão “à imagem de Deus” se refere ao homem como um ser espiritual, racional, moral e social.
a) Espiritual: O homem tem a capacidade de conhecer a Deus, de manter comunhão e de se relacionar com Ele. Em Gênesis 3.10, o homem afirma que ouviu a voz de Deus. Então, a conclusão é simples e lógica: Deus falava com o homem, e este conseguia ouvi-Lo, sabendo Quem estava falando.
b) Racional: O homem foi criado com capacidade para adquirir, descobrir, compreender, interpretar e avaliar fatos. Para exercer o domínio sobre a terra (Gn 1.26-28; Sl 8.4-9), ele precisava de capacidade intelectual.
c) Moral: O homem tem o senso da obrigação moral, o tremendo senso do dever. Gênesis 2.16-17 deixa claro que o homem entendeu a ordem e tinha condições de obedecer a ela. E o fato de Adão e Eva se sentirem culpados após a desobediência confirma nossa afirmação (Gn 3.7).
d) Social: O ser humano foi criado para viver em grupos, em sociedade; significa que é um ser sociável, com instinto gregário. É algo que vem da própria Trindade, porque Deus nunca existiu sozinho, mas sempre em três Pessoas (1Jo 5.7). A afirmação do Senhor Deus “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18) significa não somente o primeiro casamento na história humana, mas também a confirmação de que Deus quer que a humanidade viva em comunhão, que tenha relacionamentos.
Os termos imagem e semelhança de Deus têm dois importantes significados:
  • O homem é uma criação de Deus, dada a ênfase da palavra criar, em Gênesis 1.26-27
  • Dentre todas as criaturas, somente o homem foi criado e destinado para ser a imagem de Deus no mundo. O homem não tem a imagem de Deus, ele é a imagem de Deus. Mesmo depois da queda, essa imagem que ficou está distorcida, mas ainda está presente.
3. Implicações
O que a imagem de Deus no homem tem a ver com a religiosidade humana? A resposta é que fomos criados não somente com corpo físico, mas Deus nos deu a alma, que nos possibilita ter relacionamento pessoal com Ele: podemos orar, louvar e ouvir as palavras que Deus quer nos falar. “Ouve, povo meu, quero exortar-te. Ó Israel, se me escutasses!” (Sl 81.8). Esse versículo nos ensina duas verdades. Primeira, Deus fala; segunda, as pessoas podem entender o que Deus fala.
Aplicação
A imagem de Deus no homem é o principal sinal de que a religiosidade humana não é uma invenção, mas existe um Ser superior que precisa ser adorado.

II. A religião e a Bíblia

Toda religião tem seu livro sagrado, seu lugar sagrado, seu templo sagrado, seu líder maior, suas crenças inegociáveis e seus extremismos. Russell Champlin classificou oito tipos de religião: animista, legalista, ritualista, sacramentalista, natural, racional, revelatória e mística. Se quiser conhecer os detalhes, procure na Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Editora Hagnos, vol.5. p.639.
1. Que é religião?
O termo tem sua origem no verbo latino religare, que significa “religar”, “ligar de novo”. Também definida como o conjunto de crenças, dogmas e práticas próprias de uma confissão religiosa.
A história da humanidade e a história das religiões se confundem. Isso se deve ao fato de que não houve, no passado, comunidade ou cultura sem religião. Está claro que, do mesmo modo como fomos fisicamente preparados para respirar, falar determinada língua, gostar de música e comer, também fomos preparados para a vida espiritual. As religiões egípcia, grega, romana, nórdica, celta, chinesa, japonesa e outras comprovam a diversidade religiosa entre os homens.
2. Que significa ser religioso?
Vamos encontrar tantas respostas quantas religiões existem. Pode significar crer que Deus é a fonte e a finalidade da vida; ou crer que amar o próximo é tão importante quanto amar a Deus; enquanto outros acham que as duas coisas são completamente diferentes, que se pode matar o próximo em nome de Deus, quando Deus nunca pediu tal coisa! Alguns acham que ser religioso é consultar bruxas, enquanto outros preferem queimá-las vivas. Há quem entenda que obedecer aos mandamentos, fazer votos, cumprir promessas, recolher-se num mosteiro e no silêncio, fazer opção pelo celibato e pelos pobres, sacrificar-se até à morte, signifique ser religioso; assim como raspar o cabelo ou nunca cortar um fio de cabelo, ir à mesquita na sexta-feira, à sinagoga no sábado, ou ao templo no domingo. Ser religioso pode significar construir um luxuoso templo ou adorar numa simples igrejinha. Finalmente, outros acham que a religiosidade se manifesta quando pintam quadros e tetos de capelas ou fazem a imagem de um santo.
3. A palavra “religião” na Bíblia
Na versão Almeida Revista e Atualizada, o termo “religião” aparece em Atos 25.19; 26.5; Tiago 1.26 e 27, mas nem todas traduzem a mesma palavra grega. E o termo religioso” só aparece em Atos 17.22 e Tiago 1.26.
a) Atos 25.19: A palavra grega traduzida por “religião” aqui é deisidaimonia, cujo sentido literal é “temer uma divindade”. Nesse texto, Festo estava explicando a Agripa e Berenice que os judeus tinham certas disputas acerca da sua “religião” e a respeito de um certo Jesus.
b) Atos 26.5: Nesse e nos próximos dois versículos, o termo grego traduzido por “religião” é threskeia, que significa “serviço a Deus”. Aqui Paulo está se referindo ao farisaísmo como uma religião.
c) Tiago 1.26 e 27: O texto ensina quais são as três características do exercício prático da religião: controlar a língua, cuidar dos órfãos e das viúvas, e não se deixar contaminar pelo mundo.
Fica muito evidente que a palavra “religião” é pouquíssimo usada na Bíblia, pois a ênfase das Escrituras não está na religiosidade, mas sim, nos deveres do homem para com Deus, que estão resumidos no próximo tópico.

III. A busca pelo sagrado (Sl 42.2)

Os textos e os comentários feitos até aqui são suficientes para comprovar que fomos criados para ter comunhão e paz com Deus. Todavia ainda precisamos considerar um texto bíblico: Eclesiastes 3.11.
A eternidade no coração do homem. Ao afirmar que Deus colocou a eternidade no coração do homem (Ec 3.11), o autor bíblico está revelando tanto a glória quanto a miséria do homem. A.W.Tozer nos lembra que “ter sido criada para a eternidade e forçada a viver no tempo é para a humanidade uma tragédia de enormes proporções. Tudo dentro de nós clama pela vida e pela permanência; no entanto tudo que nos cerca nos faz lembrar da mortalidade e da mutação”.
O homem foi criado para algo mais do que a roda-viva da vida. Deus pôs dentro de nós o conhecimento de que este mundo não é suficiente. Mas, ao mesmo tempo, não podemos saber como tudo se encaixa. Deus sabe, e por isso confiamos Nele. Um historiador russo declarou: “Dê ao homem tudo o que ele quer, e logo ele verá que o tudo não é tudo”. E Agostinho escreveu: “Tu nos criaste para Ti, e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousar em Ti” (Confissões, p. 23).
“A eternidade de Deus e a mortalidade do homem se unem a fim de nos convencer que a fé em Cristo Jesus não é uma opção.” (A.W Tozer)
Aplicação
Somente Jesus Cristo, que é o Pai da Eternidade (Is 9.6), pode preencher essa eternidade que Deus colocou no coração do homem.

IV. Cinco deveres do homem perante Deus

Não temos dificuldade em acreditar que muitas pessoas querem sinceramente agradar a Deus. Entretanto é o próprio Deus quem nos ensina como agradar a Ele. Os cinco verbos a seguir nos indicam o caminho.
1. Crer – “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).
2. Amar – “A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” (Lc 10.27).
3. Temer – “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (Ec 12.13).
4. Adorar – “Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto” (Mt 4.10).
5. Servir – “Servi ao Senhor com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico” (Sl 100.2).
Aplicação
A ênfase bíblica não é religiosa, mas a comunhão com Deus, que não poderá ser obtida sem Jesus Cristo, como veremos em outras lições. Sendo assim, esses verbos servem para dar uma direção segura do que Deus pede de cada homem que O busca.

Conclusão

Será que existe a verdadeira religião? Será que Deus não considera o que o homem faz para agradar-Lhe? E se o caminho em que você estiver não for o verdadeiro?

O desafio da vida urbana

O desafio da vida urbana

Texto básico: Lucas 10.1-12, 25-37

Introdução

É preciso coragem para se analisar objetiva e criticamente a atuação eclesiástica, especialmente nos centros urbanos, os quais estão em rápida e constante mudança, quer em virtude do êxodo rural, quer pela velocidade com a qual a dinâmica da vida contemporânea caminha. Essas mudanças assustam muitas pessoas, especialmente as mais conservadoras, que tendem a ver o que é diferente sempre como uma ameaça, sendo tentadas, portanto, a fecharem-se dentro dos seus próprios guetos, onde supostamente estariam mais seguras. Não estariam, com tal prática, fugindo da vocação missionária essencial à igreja cristã? Como, então, poderiam e deveriam desenvolver um ministério de missões urbanas efetivo e fiel a Deus neste mundo tão complexo, em constante mudança e em crescente apostasia religiosa? Nesta lição, vamos analisar a missão dos setenta discípulos enviados por Cristo às cidades e a parábola do bom samaritano que ele contou a um religioso cético, que o estava provando. Através dessa dupla análise, vamos buscar princípios que nos ajudem a enfrentar essa vocação evangelística.

I. A missão dos setenta

A primeira parte deste estudo é baseada na passagem (Lc 10.1-12) conhecida como a missão dos setenta, a qual serve de base para a nossa reflexão sobre os desafios próprios à missão urbana. Acompanhemos a descrição do texto e a análise dos seus ensinamentos, destacando os aspectos mais relevantes.
a. Entendendo a missão dos setenta
O Senhor Jesus enviou setenta discípulos, em duplas, para irem à sua frente às cidades por onde ele haveria de passar. Ele os advertiu sobre a grande dimensão da seara, pela qual deveriam orar a Deus rogando o envio de mais trabalhadores, e sobre a situação de risco deles, que seriam como cordeiros lançados aos lobos (vs.1-3). A seguir, ele passou a lhes dar algumas orientações funcionais, que incluíam levar poucos pertences pessoais que não lhes prejudicasse na missão, saudar os outros com votos de paz, e a humilde e grata aceitação da acolhida que lhes fosse oferecida (vs.4-8). Por fim, Cristo dá as orientações finais ao grupo que, como precursores do Messias, receberam dele autoridade para operar alguns sinais e também para alertar sobre a condenação certa àqueles que rejeitassem tal oferta da graça de Deus (vs.9-12).
Essa descrição resume o teor das palavras de Cristo àqueles setenta discípulos missionários, que exerceram uma espécie de ministério ampliado do colégio apostólico, dadas as semelhanças vocacionais, funcionais e autoritativas. Levando em consideração tanto as semelhanças, quanto as diferenças entre o ministério deles e o que nós hoje, como igreja contemporânea, deveríamos desenvolver, analisemos princípios importantes para o ministério evangelístico urbano que o texto nos apresenta, visto que eles foram enviados para exercer exatamente esse tipo de atividade.
b. Aspectos do ministério urbano na missão dos setenta
Há três aspectos que podem ser observados da missão dos setenta que nos apresentam princípios importantes para o desenvolvimento de missões urbanas. Vejamos:
  1. A vocacionalidade – Assim como aqueles setenta discípulos missionários que foram enviados às cidades como precursores de Cristo, aqueles que desejam desenvolver um ministério urbano eficiente também devem se enxergar como pessoas que vão à frente de Cristo. Isso é necessário para que, através do seu testemunho, prepare os corações daqueles que haverão de reconhecer o Senhor como o seu Redentor pessoal. Por essa razão, importa também que tenham a visão da cidade, não simplesmente como uma “terra de ninguém”, um amontoado de pessoas ou um campo de conflito de interesses pessoais, mas que a vejam, além das estatísticas sociais e criminais, como um campo fértil a ser trabalhado, com muitas pessoas a serem alcançadas. Essa visão revela a verdadeira vocação dos trabalhadores da seara urbana, os quais são poucos. Por isso devemos também orar ao Senhor, rogando que envie pessoas com essa visão, que abracem essa vocação de levar Cristo aos outros, indo ao encontro das pessoas e anunciando-lhes o evangelho (2Ts 3.1). Se é verdade que não devemos nos isolar dos perdidos, é necessário que saibamos que o trabalho de evangelização gera uma tensão e traz consigo perigos reais de oposição (Ef 6.12,19,20). Não precisamos, de fato, orar por isso, como Cristo exortou àqueles setenta discípulos?
  2. A funcionalidade – A vida urbana é normalmente bastante corrida. As pessoas nem sempre têm tempo ou disposição para parar e ouvir o que estranhos têm a lhes dizer. Sendo assim, o trabalho evangelístico urbano deve ser objetivo. A equipe envolvida não deve desperdiçar a atenção que conseguir das pessoas, mas deve bem aproveitá-la para lhes anunciar o evangelho propriamente dito (Ef 4.5,6). Também é esperado que sejamos respeitosos e sinceros na evangelização, demonstrando o nosso desejo de que os ouvintes recebam o evangelho que transmitimos, pois só assim eles serão beneficiados com as suas graças decorrentes (At 19.4,8; Ef 6.24). Por fim, devemos ter empatia com os nossos ouvintes, recebendo a acolhida que eles nos oferecerem, pois a rejeição da demonstração de hospitalidade normalmente é tida como ofensa, arrogância pessoal e desprezo pelos outros; basta que se observe a prudência. Há muitas pessoas que prejudicam esse contato com outras por rejeitarem o que lhes é oferecido; e há até obreiros que recusam comer certos alimentos na casa dos seus anfitriões, o que acaba deixando uma má impressão.
  3. A autoridade – Ainda que nós não façamos parte daquele grupo precursor do Messias, o qual contou com parte da sua capacitação sobrenatural como evidente sinal de que eles estavam abrindo caminho para Cristo, em um sentido relativo, também temos essa autoridade. Não devemos, portanto, banalizar o alto teor da mensagem que pregamos (Cl 1.27-29), entregando-a levianamente (1Co 4.1,2; 2Co 4.1), ou mesmo diminuindo as suas exigências e aumentando os seus benefícios, no afã de ver pessoas aceitando o evangelho (Hb 2.1). Sendo assim, também temos a autoridade para advertir as pessoas sobre o risco que elas correm caso continuem a rejeitar a mensagem do evangelho. Aqui, portanto, trata-se da necessária autoridade do mensageiro fiel, o qual anuncia o evangelho como um verdadeiro representante do próprio Cristo, tanto para a salvação dos que crerem, o que deve ser o nosso desejo e empenho, quanto para a perdição dos que rejeitam a mensagem da redenção (At 13.44-49).
Da missão daqueles setenta discípulos, destacamos alguns princípios para o trabalho evangelístico urbano contemporâneo – até mesmo diante das semelhanças que há entre ambas as missões, ainda que não desconsideremos as suas diferenças – os quais ressaltam que a igreja da cidade deve abraçar a sua vocação evangelística e, para isso, precisa ter uma visão apropriada do serviço. Destacamos também a conveniência de se realizar o trabalho estrategicamente funcional e objetivo, estabelecendo laços de confiança e empatia com as pessoas a serem alcançadas. Finalmente, a tarefa evangelística urbana deve ser exercida com seriedade, através de posturas, atitudes e conteúdo que comuniquem tanto a gravidade, quanto a sublimidade daquilo que está sendo feito, o que não é entretenimento evangélico, mas trata de realidades eternas.

II. O bom samaritano

A segunda parte deste estudo é baseada na conhecida parábola do bom samaritano, registrada em Lucas 10.25-37, da qual podemos extrair alguns princípios essenciais para as estratégias de evangelização urbana a partir da análise que faremos dela.
a. Entendendo o contexto da parábola do bom samaritano
Em seguida às orientações dadas por Cristo aos seus setenta discípulos, Lucas registra que o Senhor advertiu os moradores de Corazim, Betsaida e Cafarnaum por terem-no rejeitado, o que pressupõe um certo período de tempo. A seguir, o nosso Senhor ouviu o relato dos discípulos missionários que regressavam eufóricos da missão, ávidos por narrar os feitos gloriosos da missão, pelo que Cristo os advertiu, ao afirmar que a maior alegria deles deveria ser por estarem entre os salvos. Logo depois, o Filho de Deus deu graças ao Pai porque ocultou aquelas coisas dos sábios e instruídos, mas revelou aos pequeninos. Isso significa que o conhecimento pessoal e redentor dele através de Cristo se dá por soberana manifestação da sua graça (vs.13-24).
Em seguida, Lucas registra que um certo intérprete da lei, querendo provar o Senhor Jesus, lhe pergunta sobre como herdar a vida eterna (v. 25). Jesus devolve a pergunta inquirindo sobre o que está escrito na lei e como ele a interpretava (v. 26). O intérprete corretamente respondeu resumindo a lei nos dois pontos básicos clássicos de amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo. Cristo reconheceu a boa resposta e o exortou a praticá-la (vs.27,28); contudo, procurando se esquivar, o homem perguntou a Jesus quem seria o seu próximo (v.29). O nosso Senhor respondeu através desta conhecida parábola do bom samaritano.
 b. A parábola do bom samaritano e as missões urbanas
Destacamos três aspectos que se relacionam diretamente com a prática da evangelização urbana. Vejamos:
  1. O interesse distorcido de alguns – Na evangelização urbana, é preciso termos em mente que as pessoas que nos indagam sobre a Palavra podem ter interesses distorcidos. Isso pode variar desde uma visão utilitária da fé, que leva pessoas a buscarem a religião apenas quando precisam de algum auxílio, mas sem um genuíno interesse em se tornar um discípulo de Cristo, até razões meramente sociais, como certos políticos que procuram fazer média com os religiosos, especialmente em épocas de campanha eleitoral. Nessa parábola, o intérprete da lei é uma ilustração disso, pois não se aproximou de Jesus com uma pergunta sincera; só queria provar a Cristo, o qual sabiamente inverteu a situação e lhe mostrou que ele é quem estaria reprovado segundo os critérios da lei. Desse incidente, aprendemos que devemos evitar os falatórios inúteis. Para isso, precisamos observar se há sinceridade nos questionamentos das pessoas (1Tm 1.4; 6.20,21) e confrontá-las quanto às suas reais motivações religiosas (Jo 6.26,27). É preciso também exortá-las à prática do que têm ouvido (Tg 1.22)como Cristo fez com aquele homem, cujo debate teológico não vinha acompanhado do empenho pessoal.
  2. A religiosidade indiferente à humanidade – No coração da parábola do bom samaritano está a lição de que o amor ao próximo é cumprido por meio de atos que demonstrem amor, os quais rompem barreiras e preconceitos e aproximam as pessoas umas das outras. Com essa parábola, o Senhor está denunciando a hipocrisia religiosa daquele intérprete da lei. Não foi sem razão que Cristo citou dois personagens de notória importância religiosa nos seus dias – o sacerdote e o levita (vs.31,32) – como ilustrações de pessoas que equivocadamente poderiam imaginar que as suas responsabilidades religiosas seriam suficientes expressões de uma fé saudável, mas não eram. A verdadeira religião não consiste essencialmente no cumprimento de funções religiosas, como se fossem sempre legítimas expressões de pura devoção a Deus; é preciso lembrar que os exercícios litúrgicos podem mascarar um auto-engano (Is 1.15-17). O verdadeiro amor a Deus deve vir acompanhado do amor ao próximo (1Jo 4.20), demonstrado por atos concretos (1Jo 3.17,18).
  3. A sensibilidade com os excluídos – O impacto da parábola foi ainda maior porque a sua personagem virtuosa era exatamente um samaritano, povo com quem os judeus tinham uma severa rixa (Jo 4.9). Dessa maneira, Jesus nos ensinou que não devemos nos manter afastados das pessoas por preconceitos humanos ou religiosos, ainda que muitos não entendam esta vocação redentora do Cristianismo e permaneçam na visão religiosa do mérito (Lc 7.39,47). Sempre haverá quem critique quaisquer posturas que extrapolem os hábitos convencionais da sua tradição religiosa (Mt 11.16-19), ainda que estas estejam distantes do preceito bíblico.
A partir dessa análise, destacamos alguns princípios para o trabalho evangelístico urbano contemporâneo: é necessário um estado de alerta e cuidado para com as pessoas que questionam a religião cristã com uma motivação diferente do sincero e legítimo interesse ou dúvidas; é necessário que atos concretos expressem misericórdia e amor genuínos para com o próximo, o que manifesta o verdadeiro amor a Deus; por fim, para realizarmos um trabalho evangelístico urbano eficiente e bíblico, devemos permanecer sensíveis e atentos àqueles que comumente têm sido marginalizados pela sociedade e pela religião. Devemos olhar para essas pessoas motivados a alcançá-los com o evangelho que acolhe, perdoa, santifica e capacita pecadores, antes marginalizados ou opositores ao evangelho, a serem santos instrumentos para a glória de Deus (Gl 1.23; 2Co 4.7), em decorrência desse encontro redentor com Cristo através do ministério evangelístico (1Pe 2.9,10).

Conclusão

Ao refletirmos sobre a responsabilidade missionária nos centros urbanos a partir da missão dos setenta e da parábola do bom samaritano, concluímos que devemos enxergar que a nossa vocação é a de anunciar o evangelho aos perdidos com autoridade, sensíveis à realidade das pessoas, associando atos concretos de auxílio ao próximo à pregação intrépida do evangelho. Devemos evitar as visões equivocadas que só enxergam no mundo urbano as ameaças da “grande meretriz babilônica”, o que nos empurraria a uma religiosidade que é uma fuga interna dirigida aos exercícios litúrgicos e doutrinários divorciados do envolvimento com a realidade ao nosso redor. Devemos ir em busca de pecadores para a glória de Deus, ainda que conscientes de que haverá muita rejeição, pois as missões urbanas devem ser realizadas tendo em vista que as cidades, além das ameaças, oferecem oportunidades para a igreja atuar.

Salvação: o que é e para que serve?

Salvação: o que é e para que serve?

Texto básico: Efésios 2.1-10

Introdução

 Embora esse seja um dos temas centrais de toda a Bíblia, vários cristãos têm muitas dúvidas sobre o assunto. No intuito de apresentar com fidelidade e clareza o ensino bíblico sobre a obra da salvação, esmiuçamos o tema e vamos apresentá-lo detalhadamente ao longo das lições, mostrando cada um dos aspectos desta importante doutrina bíblica. Você sabe dizer o que é a salvação? Sabe como ela é adquirida? Aliás, você sabe dizer por que precisamos dela?

1. O que é a salvação?

A salvação é a maior de todas as bênçãos espirituais que o ser humano pode receber de Deus. Apesar disso, muitas pessoas não sabem o que ela é. Isso se deve, em parte, ao caráter simplório e superficial de boa parte da educação cristã ministrada em algumas denominações evangélicas e, em parte, pela ampla divulgação de algumas doutrinas massificantes que não chegam à essência da questão. Por isso, antes de vermos o que a salvação é, veremos o que ela não é. 
  1. Salvação não é a mesma coisa que filiação a uma denominação religiosa. Este é um pensamento popular muito comum. Muitas pessoas pensam que ser salvo significa perten­cer a uma igreja. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. É perfeitamente possível que uma pessoa seja membro de uma denominação religiosa por muitos anos e não tenha um rela­cionamento com Jesus baseado na graça.
  2. Salvação não é a mesma coisa que pros­peridade material. As denominações adeptas da chamada “teologia da prosperidade” falam tanto sobre a prosperidade financeira que se esquecem de anunciar o perdão de pecados e da salvação em Cristo. Assim acabam trans­mitindo a falsa noção de que Jesus morreu na cruz para nos dar boa saúde, um bom carro, uma boa casa e para salvar nosso negócio. A mensagem da cruz fica totalmente perdida em meio às questões materiais. Jesus não morreu para nos dar bênçãos materiais e sim para nos trazer a salvação. É certo que Deus nos abençoa financeira e materialmente, dando-nos o suficiente para nossa peregrinação neste mundo, mas o cerne das boas-novas não é um carro possante, mas a salvação eterna.
  3. Salvação não é a mesma coisa que par­ticipação em eventos religiosos. Este também é um pensamento comum. Muitas pessoas pensam que o fato de fazerem peregrinações e romarias é sinônimo de salvação. A ver­são evangélica mais comum deste engano é pensar que a participação em incontáveis atividades realizadas na igreja é sinônimo de salvação. Algumas atividades eclesiásticas são realmente proveitosas e edificantes. Ou­tras consistem apenas em um ativismo vazio. Salvação é um relacionamento piedoso com Deus baseado na graça mediante a fé e não em um ativismo religioso.
A esta altura, você deve estar se perguntan­do: mas afinal, o que é a salvação? Salvação é a mudança do estado de condenação em que o pecador se encontra, por causa do pecado, para o estado de bem-aventurança, para o qual é conduzido pela graça de Deus. O apóstolo Paulo menciona esta mudança de estado em sua carta aos crentes de Colossos: “Ele [Deus] nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl 1.13-14).
De acordo com a Escritura, a pessoa que não é redimida, que chamaremos de homem natural, vive em trevas espirituais e é mere­cedor da condenação de Deus por causa de seu próprio pecado (Rm 3.23; 6.23). O apóstolo Pedro menciona esta mudança de estado ao dizer que “vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Nós éramos trevas, porém, agora, somos luz no Senhor (Ef 5.8).

2. Por que o ser humano precisa de salvação?

Outra pergunta que precisa ser respondida no início de nossos estudos sobre a salvação diz respeito à sua necessidade: por que pre­cisamos ser salvos? A resposta é simples: precisamos desesperadamente de salvação porque esta é a única maneira de termos nossa comunhão com Deus restaurada e, também, de escaparmos da condenação do inferno.
A Escritura afirma com muita clareza que todos os seres humanos são pecadores (Rm 3.23; 5.12). Portanto, todos nós somos igual­mente merecedores da retribuição correspon­dente ao pecado. De acordo com a Escritura, esta justa retribuição é a morte (Rm 6.23) no seu sentido mais profundo e abrangente: morte física, morte espiritual e morte eterna. Isso implica no total rompimento de nossa comunhão com Deus.
  1. Morte física. Desde tempos imemoriais, as pessoas nascem, crescem e morrem. Devi­do à regularidade desse processo, já devíamos estar acostumados com a morte física. No entanto, ela continua sendo motivo de tristeza e dor. Ela sempre nos abate, causando o mais profundo pesar. Isso se explica pelo fato de o ser humano ter sido criado para viver, não para morrer. A morte é uma invasora em nosso sistema, por isso sempre a vemos com estranheza e dor. O ser humano foi criado para desfrutar da vida abundante que Deus havia preparado para ele no jardim, em plena comunhão com seu Criador. O pecado, po­rém, fez com que ele se tornasse merecedor da morte, que era o castigo previsto no caso de desobediência. Pela sua misericórdia, o Senhor não tirou a vida física de Adão e Eva imediatamente depois da realização do pri­meiro pecado. Ele permitiu que aquele casal vivesse por muitos anos depois disso e visse seus filhos e netos. Contudo, no momento em que o primeiro pecado foi cometido, a morte entrou no mundo (Gn 3.1-19).
  2. Morte espiritual. Paulo começa o re­lato de nosso texto básico dizendo que “ele [Cristo] vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados” (Ef 2.1). O pecado provoca uma separação entre nós e Deus. Morte espiritual é exatamente isso: separação de Deus (Is 59.2). Certamente essa é a mais terrível de todas as consequências. Deus é a única fonte de toda luz, de todo bem e de toda vida. Por isso, quando nos separamos dele por causa do nosso pecado, entramos em um estado de morte espiritual. A reversão deste estado de morte para a vida que há em Cristo Jesus é o que chamamos de salvação.
  3. Morte eterna. Este é um dos ensinos bíblicos mais combatidos em nossa época. A mentalidade pós-moderna de nossos dias não suporta a ideia de um castigo eterno. No entanto, a existência do inferno é um claro ensino bíblico. A pessoa que permanece es­piritualmente morta durante toda a sua vida, isto é, o pecador que não recebe a salvação, vai para o inferno. A condenação ao inferno é o modo como a Escritura descreve a realidade além-túmulo daqueles que morrem sem se renderem ao amor e à justiça de Deus. Para descrever esta realidade terrível, a Escritura usa uma linguagem figurada, termos simbó­licos, que retratam os horrores da punição mais severa que se pode imaginar. No entanto, embora a linguagem seja figurada (ranger de dentes, lago de fogo e enxofre, etc.), o fato que ela descreve é real. O inferno é um lugar real onde os que não forem salvos estarão eternamente separados de Deus. O próprio Jesus fala sobre a realidade do inferno muitas vezes (Mt 5.22,29-30; 10.28; 11.23; 16.18; 18.9; 23.15,33).

3. A salvação é um dom de Deus

Outra pergunta que surge imediatamente quando abordamos o tema da salvação é: Como a salvação acontece? A salvação é um dom de Deus, algo que ele dá de graça. Aqui também precisamos mencionar algumas opiniões bem populares que não encontram fundamento na Bíblia.
  1. A salvação é uma recompensa que recebemos de Deus pelas boas obras que praticamos. Esta é uma opinião muito co­mum, especialmente entre os espíritas. Ela se baseia em uma ideia de mérito entre a pessoa que pratica as obras e o oferecimento da salvação. No entanto, quando Deus nos dá o que merecemos, ele nos dá a punição eterna, afinal de contas, todos nós somos pecadores. Ao nos dar a salvação, Deus não nos trata como merecedores dela, mas nos concede uma bênção à qual não temos direito. Esse é exatamente o conceito de “graça de Deus”. Paulo afirma isso ao dizer: “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9).
  2. A salvação pode ser comprada. Esta tam­bém é outra opinião muito comum. Ela se ba­seia na ideia, consciente ou não, de que quem dá a salvação não é Deus, mas uma instituição chamada igreja. Ninguém pensaria em com­prar de Deus a salvação, pois ele já tem tudo, mas comprar da igreja. Essa prática foi muito comum na Idade Média, quando vendedores de indulgências saíam pela Europa vendendo documentos eclesiásticos que supostamente asseguravam o perdão de pecados em troca de uma quantidade de dinheiro. A ideia era pagar na terra por uma bênção celestial a ser desfrutada depois da morte.
João Tetzel, um monge dominicano que se destacou como o maior vendedor de indulgên­cias da Europa, tem uma frase famosa que diz: “Assim que a moeda bate no fundo do cofre, uma alma sai do purgatório”. Esta prática de trocar dinheiro por bênçãos tem suas rami­ficações também nas igrejas evangélicas de nossos dias. Não se trata mais de pagar pelo perdão e pela salvação, mas por bênçãos terrenas. A prática é pagar aqui para que, do céu, sejam enviadas bênçãos temporais. É essa ideia que está por trás, por exemplo, das “banquinhas de oração”. O cliente/fiel paga uma quantia em dinheiro (geralmente de 5 a 10 reais) e a pessoa faz uma oração por ela e ainda anota o nome dela para orar depois, na companhia de outros membros da igreja ou dos pastores. Isto é venda de orações!
De acordo com nosso texto básico, a salvação é um dom de Deus (Ef 2.8). Ela é oferecida graciosamente, é de graça. Não podemos merecê-la com nossas obras nem pagar por ela com nossos recursos financeiros. Ela é dada graciosamente por Deus. Tudo o que precisamos fazer é aceitá-la pela fé, que também é dada por Deus.

Conclusão

A salvação é a ação de Deus que nos tira do império das trevas e nos conduz gracio­samente ao reino de seu Filho. Esta salvação oferecida graciosamente por Deus em Cristo é a única solução para o problema do pecado e o único recurso dado por Deus para que o homem não seja condenado ao inferno, mas desfrute da eterna e gloriosa comunhão com seu Senhor.